domingo, 9 de setembro de 2018

O QUE É UMA GALENA

 Gisele Bündchen |@JoaoGogues
 
O QUE É UMA GALENA?

Muitos não saberáo o que foi um aparelho radiofónico, que julgo ter sido pouco utilizado, o qual tomou o nome de GALENA.
Pensando no assunto e porque me coube o privilégio de usar um desses receptores, proporcionando-me um período de rara felicidade, nos meus tempos de juventude.
Tentarei descrever o aparelhómetro.
Verificando vários diciónários e enciclopédias, não encontrei este nome, senão mencionando um metal como sendo um dos mais vulgares dos minerais de chumbo. Por outro lado, fazendo uma recolha, pude verificar serem os cristais de galena usados como dectetores na T.S.F.Depois destas breves pesquisas, concluì que a denominação de GALENA para o citado aparelho emissor de ondas de rádio, vem do metal galena, visto ser um pedaço desse, o principal elemento funcional da citada peça radiofónica.
Nos tempos em que utilizei o tal aparelho, porque foi na década de cinquenta, só a Emissora Nacional possuía capacidade de difusão, para se fazer ouvir com tão rudimentares recursos, que dispensava energia eléctrica. Lembro contudo de ter conhecimento da Rádo Graça, a difundir da Rua da Verónica e dos Emissores Associados de Lisboa. Concerteza haveria outros, ainda não existia TV em Portugal e a rádio sendo já uma "senhora", era uma coisa de real sedução.
Por isso a GALENA era uma verdadeira atracção, até pelo gozo que proporcionava, uma vez que era um autêntico "faça você mesmo". ainda muito míúdo lidava bem com a atraente geringonça!
Primeiro estendia um longo fio desde o cocoruto de uma árvore até uma janela, que havia no sótão. Antes da entrada, três elementos de louça ligados com a ponta do fio, evitavam qualquer contacto entre a parede e o mesmo, daí derivava a ligação para para o interior. Depois uma extensão segura a uma pedra enterrada no chão, fazendo a necessária "terra" a completar o exterior. Chegado o Verão, tornava-se necessário regar o chão, afim de ser criada a humidade nesessária ao contacto com as ondas de rádio.
Aquilo era de uma simplicidade que, por falta de uma parte dos elementos, começou por funcionar apenas com fios, com ligações aérea e terráquia, a uma ficha cada, uma das quais ligada a um pedacinho de galena, a outra estabelecia o contacto com a Emissora, com a busca de qualquer saliência a dar essa possibilidade. Um auscultador apenas fazia chegar a emissão ao tímpano respectivo, que por sua vez só era audível com aquele elemento pegado mesmo ao ouvido.
Mais tarde chegou o resto do material, que se resumia a quatro tabuinhas, com as quais foi montada uma caixa própria encimada com um pequeno rolo de vidro, onde era introduzido o tal pedaço de galena e uma espécie de monitor, composto por um fio de forma encaracolada. Ficava mais prática, rodando a peça, a forma de entrar no som do posto da Rádio Nacional. A mesma estrutura ficava a constituir o rudimentar rádio, já tinha acopladas as respectivas ligações referidas anteriormente.
Evidentemente que hoje, por puro entretenimento, ainda se podia montar um destes sistemas tanto mais que já cheguei a ver apresentado um exemplar num célebre programa de televisão, que dava pelo nome de 1-2-3.
Claro que para montar o esquema, seria necessário espaço abundante, fora de zonas citadinas, porque nestas é reduzido.
No entanto com a vivência dos dias de hoje não se pode pôr algo do género em equação, basta ver que a rádio de há cinco décadas, nem funcionava todo o dia, não havia ainda satélites, para se ter no ar todas as transmissões efectuadas actualmente, por tudo e por nada, em todo o mundo moderno.

Daniel Costa

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

FIGURA INESQUECÍVEL - livros uma abertura ao mundo




 
Die for her closet...
 
 FIGURA INESQUECÍVEL - livros, abertura ao mundo

Das figuras de vida, bem vistas as coisas, se as prioridades não fossem apenas brotadas do acaso, o tio Miguel, de seu nome completo Miguel António Foz teria de ser número um.
Da facto o seu pai, meu avô materno, já se chamava Miguel Foz, morreu precocemente, com vinte e seis anos, deixando quatro filhos, comprado alguns pedaços de terreno e o nome de Casal do Foz, onde  mandadou construir a primeira casa local de habitação.
O tio Miguel tinha casado com uma senhora viúva, proprietária de uma pensão, em todo um prédio, o mais alto da cidade de Peniche, bem no centro da então vila, com quatro andares, um espanto!...
A tia Elvira era um pouco mais velha e tinha já uma filha, a Glória em idade de namorar.
Em resultado, devido a uma destas patologias, pouco amigas de pessoas que ultrapassaram os "entas", o tio Miguel ficou viúvo.
Ainda tentou manter e gerir a pensão, no entanto a alma da mesma, a tia Elvira já não pertencia ao mundo dos vivos e o negócio acabou por se tornar inviável, até porque os familiares da defunta, ainda esta estava em câmara ardente, imediatamente desviaram muito recheio, como talheres, tachos e outros apetrechos necessários à laboração.
Em resultado o viúvo, viu-se na contingência de trespassar a pensão, onde morava e recolher os pertences pessoais. Deles constavam um receptor de rádio Galena e um baú recheado de livros, fechado a cadeado.
Todo este material esteve armazenado no sótão da casa dos meus pais, onde os filhos rapazes tinham o seu dormitório.
Acontecia, ter os meus doze anos e "devorava" todas leituras, que ia conseguindo. Tinha lido todas as revistas que o meu avô paterno tinha guardadas, livros que conseguia na paroquia, adequados à minha tenra idade, mas "queques" para o meu gosto, muito o jornal do Seminário de Coimbra, o "Amigo do Povo", que o pai recebia semanalmente, como assinante anual, a pagar por cada um desses períodos a quantia 5$00. Esse tinha rúbricas interessantes, como o "Tio Ambróso e o Carlos ao Calor da Fogueira ou à Sombra do Castanheiro", consoante fosse Inverno ou Verão.
Daí um dia pensei, em como abrir o baú do tio. Pela "surra", experimentei o cadeado com um arame e não é que estava ali um manancial de livros à disposição?
A partir dessa altura passei a ter bastante para ler, durante muito tempo, pois só dispunha de tempo à noite, de dia já trabalhava, a sério no campo de sol a sol.
Devorei avidamente, com a tenra idade de doze anos, livros como o grande volume de Ferreira de Castro, "A Volta a Mundo", "Gaibéus, "Marés" e "Avieiros", de Alves Redol, encadernados em conjunto, "Darwin seu Saber e seus Erros", ensaio sobre a sua teoria da evolução do homem.
Muitos outros interessantes, de que não me lembro nomes, mas sei o quanto ali bebi de cultura.
Fiquei a saber algo sobre a lenta progressão rumo à canonização de santos, mais um livro critico sobre as aparições de Fátima, outro sobre a Segunda Grande Guerra, Santa Filomena, um romance, género de Daniel Delfoi, publicado em capítulos num jornal, depois encadernados.
Um policial com a personagem de uma mulher muito frívola, capaz de sugar rios de dinheiro, este tinha chegado à contingência de recorrer a assaltos, para poder satisfazer todos os caprichos da sua amada.
A amizade e os encontros com o irmão, de quem era muito amigo, um policial, passaram a servir para saber o andamento a investigação. Rematava sempre, em fim de conversa: "Ourivesaria e Veronice são o meu mundo".
O epílogo acaba por ser dramático, o policial descobre que o gatuno que procurava era o próprio irmão. Contrariado, cumpriu o dever de o entregar a justiça.
A aprendidagem terá resultado, porque naturalmente, passei a referir assuntos desconhecidos na minha aldeia natal Bufarda. As pessoas até acreditavam, porque saíam espontâneamente, porém não raro, perguntavam: Onde aprendeste essas coisas rapaz?
Ressaltava então, um olhar modesto, enquanto fugia a mais interrogativo?
Só muito mais tarde, com as aulas liceais, vieram muitas respostas que ficaram a pairar nas minhas cogitações.
Devo dizer que atribuo muito da minha formação a esta circunstância, a tal ponto que, como trabalhador rural, comecei por fazer os dois primeiros anos do liceu, em apenas num ano, a trabalhar para pagar a escola particular, mais dois cursos - dactilografia e estenografia, acabei por ser dispensado da oral.
Mesmo com esta bagagem de baú, olhando o passado, não devo continuar modesto, acima da média e exclamar:
- Um êxito!...
Evidentemente, se sempre gostei do tio Miguel, ele passou a ser um ídolo, tanto mais que adoptei o seu nome como pseudónimo (registado), em Director executivo, da minha Revista FRANQUIA - Revista Filatélica Portuguesa e de bastantes escritos dos anos setenta.
Homenageava o tio Miguel e o meu avô, com o mesmo nome, recordado, pelo filho mais velho, o tio José Miguel, que também apreciava, assim como a tia Lourdes, a cuja celebração de noventa anos tive o prazer de assistir.
Depois, com uma certa dose de emoção, poder realmente dizer: presente!..

Daniel Costa

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

A MAGIA DOS BRINQUEDOS

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A MAGIA DOS BRINQUEDOS

Devia ter apenas cinco anos de idade, quando numa última interacção nas brincadeiras dos filhos, o meu pai construiu para mim um carrinho de bois de caniço.
Como magia, bastou para a minha aprendizagem, a ponto de em casa não mais terem faltado construções de brinquedos de caniço.
De facto estes brinquedos artesanais estavam, em exposição na escola primária que funcionava perto da minha casa.
Seria a professora que, achando naquelas peças algo do folclore local, tratou de promover a sua mostra dependurando, estrategicamente vários numa das paredes da sala de aula.
Possuí variados daqueles brinquedos, todos imaginados e executados por mim próprio.
Era assim uma aldeia do Oeste desse tempo, onde dominava um certo atraso e pobreza, em virtude de estar-se ainda a viver o fim da Segunda Guerra Mundial, o açúcar ainda se adquiria por racionamento.
Ainda me acho capaz de indicar como se executavam os carrinhos de bois de caniço.
A ferramenta era apenas o que havia à mão, uma faca de cozinha, com o indispensável bico, com a mesma se faziam os respectivos cortes no caniço seco, consistiam no seguinte:
- Dois pedaços à medida, compunham as partes laterais, um bastante maior fazia o centro da estrutura, enquanto em conjunto formava o cabeçalho (varal) do carro.
Nos dois pedaços iniciais, faziam-se buracos com o bico da mesma, de modo a que ficassem rectangulares só do lado de dentro. No centro os furos eram executados dos dois lados.
Na mesma direcção a meio, nos vértices, por debaixo dos dois primeiros pedaços, faziam-se furos mais pequenos de onde iam partir as estruturas para o rodado.
Posto isto, dum outro pedaço tiravam-se as chamadas travessas, que constavam de caniços rachados, tinham de encaixar bem em todos os buracos, ficando assim feita a estrutura do carrinho:
- Às travessas dava-se a função de, outra vez com bocados de caniço lascado, tamanho igual e entrelaçados, a construir o estrado.
A seguir dava-se a construção do inevitável rodado, ia-se aos furos que se tinham inserido noutro ângulo e com quatro pequenos pedaços, dois de cada lado, eram metidos outros tantos pequenos nacos mais finos, que teriam de ficar salientes.
As rodas já não eram de caniço, mas sim de madeira, tirada de carrinhos de linhas, que serviam para executar rendas de bilros de Peniche, actividade muito vulgar naquele tempo, nas tarefas das donas da casa do citado concelho.
Sempre a mesma faca, separava o interior dos citados, que imitavam muito bem as rodas, ligando-as depois com eixo feito também de caniço.
Desse modo, o brinquedo era uma verdadeira obra artesanal, enquanto naífe.
A vulgaridade da faina agrícola da época, com os carros movidos por juntas de bois, serviam de preciosos modelos, para fazer funcionar a imaginação de um pequeno construtor de brinquedos.
No que servia de cabeçalho do carrinho, podia construir-se outro furo na ponta final, para se introduzir um elemento móvel ali chamado chavelha.
A mesma em que se amarraria a canga que jungia os bois, no caso imitada por dois bocados, sempre de caniço, sendo o sítio das patas feito apenas com um corte diagonal. Para imitar os chifres, dois furos nas pontas, onde se introduziam já aguçados, pedaços do mesmo material.
Com tudo pronto ainda se podiam, por meio de furos introduzir fueiros móveis, para tornar a imitação o brinquedo mais credível.
Depois entrei em nova fase e dos caniços, separava pedaços para fazer outros brinquedos, como assobios, pífaros, moinhos de vento, etc.
Com rachas, em pedaços com cerca de meio metro, eram feitas uma espécie de castanholas. Com batimentos secos, feitos com a parte anterior da mão, davam uma música, mesmo de caniço rachado.
Por fim já adolescente, sendo o meu pai pequeno lavrador, cultivando os seus pedaços de terra, levava tudo à moda dos ancestrais, ignorando alguma modernização, que seria conveniente introduzir.
Chegado o Outono o pai fazia também a sua água-pé.
Era um caso sério para a abrir. A todos os argumentos, respondia que ainda não estava bem "cozida" (fervida), porque era uma bebida mais forte do que outras já provadas.
A partir disso era letra morta qualquer argumentação. Inventei então um pequeno truque:
- Mais uma vez, um pedaço de caniço, com as zonas nodosas interiores obliteradas, por meio de um arame, formando como que uma palhinha com mais caudal que, metida na parte de cima do barril e chupada, sugava-se um verdadeiro "champanhe saloio", quiçá o melhor do mundo.
Foi a maneira de se poder fazer a prova, o pai nunca se apercebeu da descoberta do verdadeiro ovo de Colombo.
Isto sendo folclore local, também teria a ver com o facto daquela planta poácia, igual à cana, mas mais fina, existir em abundância naquela região à beira mar, onde se pode notar sempre uma brisa marinha, que obriga as terras de vinha, por exemplo, serem abrigadas por sebes de caniço seco, afim de ser protegida a produção de uvas.
Tudo isto se passou numa fase de meninice, talvez precoce, na aldeia da Bufarda, no concelho de Peniche.
Asseguro que as minhas brincadeiras tinham sempre algo em comum com a realidade, que vivida então, com a maior seriedade deste mundo, como se não estivesse a viajar no tempo do faz de conta.

Daniel Costa

domingo, 2 de setembro de 2018

LIMPEZA DE SARRO NOS TONÉIS




LIMPEZA DO SARRO NOS TONÉIS
 
 O Avô fora ferreiro, ao mesmo tempo era um pequeno industrial de agricultura, incluindo culturas vinícolas.
Tinha adega com lagar, um grande tonel com aduelas de madeira, por já não lhe fazer falta vendeu o maior por oitocentos escudos, uma quantia elevadíssima para a época.
A grande vasilha de vinte pipas, de vinte e cinco almudes cada, sendo o almude uma unidade de vinte litros.
Saiu pela porta da adega em quatro partes, com as respetivas aduelas tiradas dos arcos e pregadas a vimes.
Tal era a sua grandeza!
Agora o avô, que ficara entrevado aos quarenta anos, foi delegando ocupações aos filhos o mais velho ficara com ofício de ferreiro, o a seguir, o meu pai o abegão (tratador e trabalhador com os bois) o seguinte também aprendeu o ofício, o quarto foi carpinteiro, o quinto trabalhador. Mais três raparigas, donas de casa.
Quando andava na escola havia a adega, lembro-me do grande tonel e da sua venda, mas ainda ficaram outros tonéis menores que eram cheios com a produção de uma das vinhas que ficara sempre para o avô cuidar do cultivo.
Produzia para venda e prover produtos para casa.
O lagar era alugado a quem o solicitasse, ao custo diário de um almude de vinho que também ali ficava armazenado.
A seu tempo, procedia à trasfega do vinho.
A borra que produzida, era retirada, vendida a um comerciante do ramo, que trazia sacos brancos, onde metia o produto para transformar, creio que em bagaceira.
Depois de vendido, o vinho e consequentemente esvaziados os tonéis, era necessário proceder à sua criteriosa limpeza, coisa de que o avô sempre fora exímio, pois disso dependia em muito a qualidade do sabor do produto.
Saia sempre um verdadeiro néctar, com influência no preço, que o teor do mesmo justificava.
Tempos diferentes!...
Começava por mandar raspar o interior dos toneis, afim de tirar todo o que chamava “sarro”: era ai que eu entrava depois de solicitado o meu serviço ao pai.
Entrava dentro do tonel, por uma abertura que havia em todas as unidades, com uma escotilha, aberta logo que vazios, em cuja podia ser aplicada uma torneira em cavidade própria, até então tapada por uma rolha de cortiça ou por meio de um torno de vime, metido num pequeno furo produzido para o efeito, por uma verruma, para provar ou medir a graduação do vinho.
Dentro do tonel, era para mim um novo mundo, uma interessante aventura assinalada com cânticos, que dentro da vasilha soavam de maneira diferentemente estranha e ampliada, que até o avô sempre sorridente e cheio de complacência, na sua inegável austeridade, devia gozar enquanto de fora ia comandando a operação, com as suas interjeições ternas de comando:
- Olha limpa bem por cima!... Já limpastes bem do lado direito!... E do esquerdo!... Agora raspa e limpa bem debaixo!...
Depois uma vassoura, para varrer tudo, para uma pá que o avô segurava de fora, depois deitava num saco, voltando com a mesma para encher de novo.
Tudo impecavelmente limpo, como era lei da casa.
O avô com contentamento dava, como prémio, uma moeda de cinquenta centavos.
Como tudo produzia dinheiro, dali por algum tempo passaria um comprador para o “sarro”, o mesmo era acastanhado e brilhante.
Julgo saber que dele se extraía um químico.


Daniel Costa

BOLECA COM OVO




Os meus avós paternos
 
BOLECA COM OVO
Tinha, precisamente, cinco anos e meio de idade, era Domingo de Páscoa, a minha mãe logo de manhã mandou-me a casa do avô buscar uma garrafa de vinagre.
O abastecimento de vinagre, lá em casa, era sempre da adega dos avós paternos, que mantinham um barril com o mesmo, feito da sua produção de vinho.
Tudo bem portanto!
Havia ainda dois tios solteiros, saudando-me com certa euforia disseram, como se isso aos meus olhitos de criança fosse alguma coisa de outro mundo:
- À tarde vêm cá todos, hoje é Domingo de Páscoa e a avô fez bolecas com ovo e vai dar uma a cada neto!...
 
- Resposta minha, com ar de irradiante felicidade:
- Não preciso, a mãe também cozeu ontem e fez uma boleca para cada filho!...
- Tios em uníssono, com ar pouco amigo:
- Ah… não precisas!...
- E, a avó está tão contente por ver e presentear o conjunto dos netos!...
 
- O ar de pura reprovação, e ensinou-me algo. Mais tarde, pensei que aconteceu uma humilhação, mais que inadequada para uma criança de tão tenra idade.
Aqueles meus tios não tiveram o mínimo de sensibilidade para sentir a criança de índole “fresca”, ao mesmo tempo humilde que eu era.
Na altura, nem conhecia a palava, mas senti-me humilhado, sobretudo com o tom de voz.
Humilhado a tal ponto que a mãe à tarde, muito procurou por mim mas em vão, já não me encontrou.
Até que resolveu ir a casa dos avós com os outros três filhos, sem mim o mais velho.
Segui a mãe à distância, sem ser visto. Não pude deixar de me comover, porque senti a grande preocupação da minha mãe.
Com o assunto arrumado, logo me instalei, tristonho, em casa.
Fazia parte da reunião, a professora, que vinda de Alcafache, a Dona Justina, era amiga da casa e consequentemente, considerada pelos avós.
É pelo facto dela lecionar ali naquele ano, que preciso exatamente a minha idade.
Quando equaciono o caso, verifico que os meus avós, nem sequer se dignaram entregar à mãe uma boleca, para mim, outro erro!
Passaram umas boas dezenas de anos e nunca esqueci o fato. Fixado na memória, jamais esquecerei o transe.
Não dei uma reposta correta, tanto mais que a educação austera, diria mais conventual paterna, não se coadunava, mas afinal eu era uma inocente criança e devia haver certo cuidado de aproveitar a oportunidade, tendente a um ensinamento prático, que decerto eu aceitaria de bom grado.
Adultos a humilhar traquinices de criança, a falar à mesma considero errado.
Um miúdo quer-se aberto, os adultos têm de ter  por força, a preparação para observar o pensamento delas e tentar corrigir sem humilhar.
Se uma criança diz não gosto de ti, não vamos responder a dizer:
 - Também não gosto, calha mesmo bem!
Porque não fazê-lo de outro modo?
Dizendo:
- Gostarei sempre de ti!...
Normalmente a criança olha, vê-se nela a sensação de um certo prazer, como quem diz - afinal sou estimada!
E dar prazer aos outros, sobretudo a crianças, é agradável!
O ensinamento, sem se ver, persistirá e ficará sempre no seu íntimo, como gratificante.
Naquele caso, a memória que guardo destes tios é a de que nunca os deixei de olhar de soslaio, quero dizer, de modo nada positivo.
 
Boleca com ovo, feita nos meus anos quarenta, com mais ou menos arte, era o nome dado na aldeia do meu nascimento a um tipo de pão branquinho, de farinha de trigo, mais pequeno cozido com um ou dois ovos, um dos modos, com que padrinhos, tios, avós ou pais distinguiam a sua petizada pela Páscoa.
Daniel Costa

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

O MAIS CERTO FUTURO


 ❤️🧡💛💚💙💜

O MAIS CERTO FUTURO

Nada há mais certo do que a morte, portanto devemos ver esta, apenas, como um episódio normal a terminar o nosso viajar no mundo, se bem que ninguém vai num velório, ou cerimónia afim, pensando que o futuro, sempre lhe reserva um fim, em cerimónia igual.
Portanto um velório pode torna-se numa festa, exemplifico com o corpo de um acidentado, quando se fazia transportar de bicicleta. A reunião teve lugar, na adega do pai e as torneiras funcionaram, abrindo a encher copos, abastecendo os convivas de vinho.
Tinha eu cerca de três anos apenas, o tempo em que se me iniciou a reter na mente alguns episódios de vida, ainda florescentes, passados sete dezenas de anos, dum passado que toma laivos de puramente ficcionado, ou sonhado. Porém em tempo, testado por quem desta retenção duvidou.
Todavia é sabido, que esta verdade é bem rara e talvez eu tenha pressupostos estados de espírito de clarividente ou até de elevado QI.
Mais tarde, o teste que foi feito em elementos descendentes, com o mesmo ADN e em nenhum episódio se notou transmissão, embora se tenha notado boas mentes psicológicas.
- Nascido em 1940:
- Três episódios de 1944, por mim retidos, com cerca de três anos portanto.
- Velório do avô Zé da Avó, no que tinha sido a sua sala de dormir com a esposa. Recordo-me de estar bem quietinho, bem comportado, como os adultos presentes, comodamente sentado, um dos lados do féretro.
Recordo ainda, uma vivência desse avô materno, por casamento, ele e da avó Jesuina, ambos antes viúvos, em segundas núpcias.
Ele já no estado de louco desmemoriado, a não reconhecer o eu, neto, a ser esclarecido por um outro neto mais velhinho, teve então a seguinte tirada: “coitadinho do meu netinho é bonito e “formosinho”.
- Velório da tia Regina (tia paterna), cujo falecimento ocorreu aos cerca de 20 anos, pressupostamente de tuberculose, na época e no espaço, dizia-se, doença má, como se designavam, indiscriminadamente, as doenças terminais, ao tempo.
Recordo ainda o carinho da tia Regina, que repartia comigo as bananas, que os pais, meus avós, lhe compram, especialmente, devido à doença, que de modo algum provinha de carência alimentar, já que os pais eram, lavradores abastados.
Pela mesma atura, pelo menos um a vez, carinhoso, percorri a hoje Rua da Senhora do Rosário, de mão dada, com uma miúda, por certo, dentro da mesma idade. Depois deixei de a ver, foi então que a minha me esclareceu, da sua morte.
A criança, era irmã do David e do Chico David, esqueci os nomes, ou alcunhas dos pais, mas não dos avós maternos; o Botas e a Mónica.
Cerca de dois anos depois, num casebre, num campo do Joaquim Quarenta, no Casal Foz, ali estava sobre a palha, o corpo de José Daniel, o que mendigo, viajante do mundo, que ali pernoitara. Havia a figura do Cabo – Chefe, um civil, politicamente, nomeado, faziam parte de uma estrutura outros Cabos civis. No caso já ali estavam dois desses cabos a escoltar o corpo.
Depois, já nos 10 anos, há a recordação de no intervalo da escola primária, ter soado entre o rapazio: “ olhem – o Elias matou-se, está dependurado numa corda, atada na viga do seu palheiro”!...
No intervalo, logo o rapazio, de que eu fazia parte, como que catapultado, acorreu ao “espectáculo” de ver o corpo do homem dependurado.
Ainda não havia qualquer autoridade, de guarda ao corpo.
O Elias era ascendente do Tenista Gastão Elias.

Daniel Costa



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

PROLÓGO




PRÓLOGO

Quem, no século XXI, procura acompanhar a evolução, de uma era impulsionada pela alta tecnologia que, a cada dia, traz novas surpresas inovadoras, terá mesmo de, cavalgar ao lado do passado e do presente, sendo contemporâneo do futuro.
Assim me posiciono, protagonizando um mundo autobiográfico de alguém que, nasceu jornaleiro - agricultor.
Ter partido dessa condição, não é partir de uma civilização de castas, embora também redutora, até pelo nascimento em localidade pequena e muito limitada, culturalmente, onde todo o mundo vivia de uma agricultura atrasada e de sobrevivência.
“Terras pequenas, não fazem homens grandes”.
Sendo a cultura, tudo o que fica depois da escola, confesso que, no depois, os meus melhores professores foram analfabetos, de quem absorvi ensinamentos que, retive além de outros posteriores.
Ainda que se “trotando” a contemporaneidade do futuro, há a percepção de que essa cultura tradicional; herança passada de geração em geração, pode conter o grande rumo em direcção a esse futuro.

Daniel Costa