domingo, 7 de outubro de 2018

CRUZAMENTO COM O CRIME


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CRUZAMENTO COM O CRIME



Se a estrada Peniche – Lisboa visava o transporte do pescado para a capital, era mister que o produto chegasse também a outras zonas do pais e nada como o caminho-de-ferro, o transporte por excelência do princípio de século passado.

No areal de Peniche, se bem me lembro, onde hoje se situa a zona portuária, pelo menos, ainda nos anos cinquenta, era possível detectar linhas assentes, por onde havia de circular o comboio. Fariam parte de uma estrutura planeada para o efeito.

O projecto foi abortado e vários abegões (tratadores e trabalhadores com bois) do concelho, com os seus bois jungidos aos respectivos carros, continuaram ainda a fazer o transporte para a estação ferroviária de S. Mamede, Bombarral.

Do porto de Peniche a S. Mamede, Bombarral, distarão cerca de quarenta quilómetros, percorridos em linha recta por entre declives vários, uma zona a que se dá o nome de Sezaredas, um comprido cerro onde abunda a pedra e muito mato.

Podemos calcular o quão era difícil a vida desses abegões, que tinham de se levantar de madrugado para tratar dos ruminantes. Porém o peixe, era mister chegar à estação para ser expedido para diversas zonas do país.

Na mesma época, o pastor de ovelhas, Francisco Caiado, a não regular bem da cabeça, cumpria serviço militar em Lisboa. 
A determinada altura veio à aldeia em gozo de férias. O transporte corrente, à época, era o comboio e a estação mais próxima da aldeia da Bufarda era a de S. Mamede distante dali, cerca de trinta quilómetros a corta mato.

Chegada a altura de se apresentar no quartel, meteu-se a caminho para a estação, invariavelmente, a de S. Mamede.

Naqueles tempos, os caminhos podiam ser perigosos, podia-se calcorrear os trinta quilómetros sem se avistar viva alma. No caso dos abegões, juntavam-se sempre vários que podiam partilhar ajudas, a dominar possíveis intempéries e outros perigos, numa assinalável entreajuda.

No caso, Francisco Caiado percorria o longo e perigoso caminho sozinho. Aconteceu que em determinada zona de matagal, saltaram-lhe dois meliantes ao caminho e apontaram para um caso macabro: metido mais adentro do mato estava um homem morto dependurado, este mesmo fardado estremeceu e disse mal à sua vida.

Encolhido, sem pinga de sangue, ouviu estes: “vocemecê conhece aquele homem que está ali dependurado”?

- Não!...
- apressou-se logo a dizer!

- Então siga o seu caminho, mas não diga a ninguém o que viu.

De imediato Francisco Caiado desandou e saiu dali, acelerando o passo.



(recolha do autor do próprio personagem principal e de um abegão).

Daniel Costa


segunda-feira, 1 de outubro de 2018

POEMA SENHORA DA BOA VIAGEM

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SENHORA DA BOA VIAGEM

Na varanda marquei Peniche e Berlenga
Posso parecer tolinho alucinado
Explico, haverá quem entenda
Se o vento sopra do norte
Olha-se a ilha levanta-se a tenda
Não chove, vê-se longe a Berlenga
No campo semeia-se o trigo
A ausência de chuva não será lenda
Do rural campo vem o pão
Do mar da vila o peixe
Depois vem o Verão
Todos em festa agradecem a Deus
Da Senhora da Boa Viagem a intercessão
Junto ao mar, no Alto da Vela
Ali à beira o gozo e a diversão
Festa e folia, pois então
No alto mar passará a procissão
Nos barcos, muitos vamos entrar
Fazer a viagem de adoração
Olhem-nos todos engalanados!...
Flâmulas e miríades de luzes
Nas águas reflectem um vistão
Seguem perfilados, passando o Carvoeiro
A meio percurso da Berlenga
Viram, como apontassem à Consolação
Num segue o andor com a Senhora
Ali vai Soberana, como protectora
Num outro a banda, tocando
Fazendo solene a ocasião
Já no cais a apoteose, com grande animação
Fogo de vista aquático e a emoção
Embevecida a Senhora da Boa Viagem
Também preside e pensará:
Adora-me este povão!...

Daniel Costa

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

NOITES NOS BARES NA DOCA DE PENICHE


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NOITES NOS BARES DA DOCA DE PENICHE



Trago à colação algumas noites passadas entre os estabelecimentos de bar na antiga doca do porto de pesca de Peniche, no último lustro da década de cinquenta.          
Tinha dezasseis anos, a família era numerosa, contava com mais sete irmãos, chegado o Verão, o pai tratava de armazenar comestíveis para o Inverno, um deles era o peixe seco ou salgado comprado em tempos de abundância.  
No Verão, por haver fartura, do que resultava preços mais acessíveis e ainda por se poder aproveitar bem os raios solares para a secagem. Nem sequer se falava em frigoríficos domésticos.          
Havia, naquela época muito chicharro e sardinha, esperava-se que o preço baixasse, para o abastecimento. Chicharro a cinquenta centavos o par (disse bem, $50 o par), sardinha a dois escudos o quarteirão (era assim dita a contagem de vinte e cinco).        
Mesmo assim, eu e o meu irmão, imediatamente mais novo propusemos ao pai ir buscar o peixe a Peniche, para o que faríamos a viagem de cerca de dezoito quilómetros, ida e volta, a pé.     
Proposta aceite e lá nos começámos a deslocar, normalmente nas noites de Domingo.    
Andava-se com ligeireza e em pouco, estávamos a esperar que chegassem as muitas traineiras, a encher a grande extensão da descarga.
A espera, regra geral, era feita até madrugada passada nos bares a ver jogar dominó, assim como jogos mecânicos ou eléctricos, ler jornais sobretudo o "Diário Popular", que saindo de tarde, já trazia os resultados de todos os encontros de futebol.    
Notícias a porem-me muitas interrogações:

- Como era possível,  poucas horas após os jogos, chegarem num jornal as notícias dos respectivos resultados, como por exemplo do do Desportivo de Peniche, a militar então na segunda divisão, um escalão inferior?
Apenas interrogações, mas ali estava eu a contemplar realidades, que pareciam impossíveis. Afinal só conhecia a aldeia da Bufarda, onde nascera, trabalhava no campo e vivia.
As noites, cálidas do porto, com o seu mar sereno, os bares, a venda do pescado na lota tornavam-se uma festa de vida para um adolescente, já trabalhador na dureza do campo.
Madrugada fora, chegavam então as traineiras a abarrotar de pescaria e era ver a azáfama dos carregadores, em duo a transportar, numa vara em cabazes de verga com assas de cordel, todo o peixe.
Tecas feitas do mesmo; fruto do quinhão, distribuído por cada pescador, outras arranjadas que os mestres oferecessem a amigos, onde se contavam futebolistas do Desportivo de Peniche e ainda outras produzidas do que era, propositadamente, deixado cair por carregadores.
Todas estas no chão, rodeadas dos respectivos vendedores a negociar, com eventuais compradores, resultavam num chinfrim, uma animação impar na noite. Dado que estas actividades eram ilegais, rondavam guardas-fiscais, a fazer vista grossa aqui, a fechar os olhos acolá, a pôr em debandada além.
As pessoas a retirarem-se de imediato, para outro lado, sendo imposto apenas respeito, pois todos eram conhecidos mutuamente.
Eu e o meu irmão arranjávamos, cada, uma sacada, muitas vezes negociávamos tecas de sardinha ou Chicharro. Só comprávamos a espécie de carapau quando o preço baixava a vinte centavos o par ($20) = a 0.002 cêntimos de hoje.
Depois regressávamos, com o carregamento e a satisfação da noite animada, da antiga doca, do grandioso porto de pesca de Peniche.
Era uma festa!...

Talvez a festa da capacidade de sofrimento da dura vida, dos anos cinquenta.



Daniel Costa


quarta-feira, 26 de setembro de 2018

EU PESCADOR!... ME CONFESSO!...


 Tudo perfeito! !!!!!

EU PESCADOR!... ME CONFESSO!...



Confesso que ainda andava na escola primária, por vezes, fui apanhar lapas nas pedras do mar do Lagido. Assim se designa uma extensão de mar, bastante rochoso, em frente à aldeia da Bufarda – Peniche, a terra onde nasci e vivi até aos 24 anos.

Ao sabor das marés, para ali se deslocavam vários amadores, de aldeias vizinhas, com as suas negaças e camaroeiros.

O Lagido fica a cerca de quatro quilómetros da Bufarda, da minha casa, um por estrada, até ao Alto do Veríssimo. Ali atravessa-se a estrada, que vai de Torres Vedras a Peniche, passando por Lourinhã. Depois uma via de terra batida, de mais, cerca de três quilómetros até ao mar, no magnífico oceano do sítio.

Este situa-se entre a prainha, com marina, de Paimogo, no concelho da Lourinhã, a sul, a norte  o Porto da Bufarda, também do concelho de Peniche, perto da instância balnear de S. Bernardino.

Porque, “o trabalho do menino é pouco, quem o despreza é louco” - era necessária a dispensa do pai que, quando aprovava era porque ia como a tia Lourdes, e a ti Alzira, exímias pescadoras de navalheiras e polvos.

A tia Lourdes, era filha de pescador sazonal, o cedo falecido meu avô Foz e enteada de pescador profissional, a quem eu chamava, por avô Zé da Avó. A propensão para se dedicar à pesca, era pois hereditária. Da mesma, resultava algum sustento para a família.

A breve trecho, já eu me entregava à faina da pesca, daqueles moluscos, que acostavam ali naquele mar pedregoso.

A pesca do polvo e da navalheira, nem sempre corria bem, talvez porque se avizinharia, temperatura da água adversa, porém no que respeita à segunda em Abril era certo o ditado:

- “Em Abril sete no covil”.

Então nos dias de lua cheia, noites de maravilhoso luar, aproveitando as marés, segundo o Borda D’Água, passava-as na faina daquela pescaria. O ritual durava todos dias do quarto-crescente. Chegava a apanhar cerca de quarenta navalheiras / dia, que mesmo para família numerosa, como era a minha, ficava cheia daquele marisco de grandeza superior, tenho-o como de mais fino paladar que o da lagosta.

O polvo da zona, regra geral, havia todo o ano e era de excelente sabor, a quantidade é era sempre aleatória. A mãe sabia várias maneiras de o cozinhar e apresentar.

- Que petisco!...

Ambos eram animais muito parvos, caiam como tordos, por serem bem gulosos no acto de se lhes apresentar o isco.

Para a pesca do polvo, o isco era um rabo-de-bacalhau, uma sardinha salgada ou um caranguejo. Bastava arranca-los do buraco e zás!... Com as manápulas eram apanhados, tirado o interior da cabeça, o “ferrado”, que os fazia de imediato esmorecer, após o que se se introduziam num saco sempre trazido a tiracolo.

Para as navalheiras era diferente, o isco era uma enfiada de lapas ou minhocas, por vezes a ideal serrada (uma espécie de minhoca do mar). Esta carecia de bastante trabalho a retirar das pedras na vazante.

Com esse isco preso na ponta da negaça, um caniço descascado, escolhia-se um buraco, onde introduzia e com a mão a segurá-lo bem quietinho, esperava, que lá tivesse bicho e mordesse com a tenaz. Como já não largasse, puxava-se pendurado, para um outro apetrecho; um camaroeiro, normalmente, um cabo de vassoura, com um saco de rede na ponta, dependurado dum arco de arame.

Escusado será dizer que, todos os apetrechos eram artesanais e feitos por mim.

Também nas grandes marés de lua cheia, diurnas, cerca de Abril, montes de ouriços-do-mar davam ali à costa, todo o mundo, das aldeias vizinhas se deslocavam munidos de uma foice velha a apanhar a sua sacada, eu também, ou sacas, transportavam-se para casa às costas ou em dorso de burros.

Depois, em fogueiras ao ar livre, eram assados e abertos com as costas da foice.

Comidas as amareladas ovas experimenta-se um sabor divino, bem digno de banquete, de deusas e deuses.

Sempre presente a ideia de chegar mais longe: pescar peixes à cana, depois na maré cheia, o que foi conseguido. Assim: não havia cana-da-Índia ou de bambú, menos carreto, apenas cana escolhida numa caniceira. Houve a habitual e forçada poupança, para adquirir fio de nylon e anzóis. Estes foram comprados numa “quitanda” da aldeia vizinha, de Geraldes.

Depois foi preciso “empatar” ao anzóis, para o que aprendi a fazer, um autêntico nó de marinheiro!

Restava a chumbada, peso de chumbo, como o próprio nome diz. De um pedaço de chumbo que andava lá por casa; o derreti, depois esfriei numa concavidade, previamente, feita numa batata, moldada como o pretendido.

Passei então a alinhar com o Júlio, um rapaz mais velho. Sobretudo, aos Domingos passávamos o dia no mar. Levamos batatas, a cozer com água do mar, acompanhadas com algo que conseguíssemos apanhar: robalinhos, sarguetes ou bodions, etc.

Áh : devo dizer que a água do mar também necessita de sal, mas aquela torna as batatas muito mais saborosas.

Em determinada ocasião, nada apanhamos, o Júlio sugeriu a apanha de cabozes, um peixinho da babugem, com as negaças, ainda com o isco das navalheiras. O mar já chegava à rocha, entre mar e terra, porém ainda apanhámos, cada qual a sua teca.

Chegado a casa, a mãe disse:

Ainda há muito tempo, farei esse peixe para jantar, um pitéu, vais ver!...

Assim foi, nem imaginava!...

Algo de inusitado, um dia aconteceu: como pesqueiro, foi escolhida uma enorme rocha, a maré foi enchendo… Enchendo… Ao sairmos, a água quase tapava a minha pequenez, fruto da tenra idade. O Júlio já muito assustado, rapidamente atravessou a água comigo, aos ombros, mais os apetrechos e o fruto da pesca, que não tinha sido má.

Porém tudo acabou, estávamos fora de perigo.

Aspirámos profundamente, a brisa marítima e saímos a caminho de casa!...



Daniel Costa


















quarta-feira, 19 de setembro de 2018

HISTORIETAS

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HISTORIETAS

Andaria pelos meus doze anos, não mais, lá na terra era muito atento como sempre viria a ser.
No entanto havia muito respeito, por parte dos adultos, em relação a crianças ou mulheres.
As conversas um pouco mais picantes, como certas anedotas, passavam-se apenas nas tertúlias de Domingo à tarde, nas tabernas, entre homens.
Os rapazolas da minha idade eram imediatamente afastados, até porque nem tinham idade para as frequentar.
Porém a minha, então débil estrutura, dava para entrar no grupo e não sei como, teimava fazendo-me passar despercebido, ouvia tudo e interessava-me pelas conversas dos adultos.
Em breve era jeitoso a contar histórias e anedotas, então começara a ser chamado, quando aparecia o conhecido Berra, ou seja, o senhor Francisco José do Vale, o nome que ele próprio fazia questão de declinar.
Normalmente, quando aparecia o Berra, como um bom mestre sapateiro, vinha de fazer entregas de trabalhos, em aldeias vizinhas, onde bebia uns copos.
Então era vê-lo prazenteiro a contar saborosas histórias, bastantes que ele próprio tinha inventado, para o seu reportório, que se compunha das mais variadas.
Achava-o um sucesso, tão elevado, que eu próprio, ainda o vejo desfilar, ao imitar os seus trejeitos.
Em resumo, passei a actuar contracenando com o célebre sapateiro.
Tinha decorado muitas anedotas e histórias, juntava um certo jeito para as contar, que mais tarde perdi, talvez porque outras vidas passarem a ocupar o meu espírito.
Numa homenagem ao grande Francisco José do Vale, de quem fiquei admirador. Vou deixar duas, muito dele e que nunca esqueci. Uma é mais história, que anedota e tem algo de picante, com apenas uma palavra menos própria, repetida, Começa em F, mas que substituirei por LIXA porque, jamais me habituei a soltar palavras menos próprias.



HISTÓRIA:
 
Noutro tempo um lavrador que tinha três filhas, aquilo a que se poderiam chamar de estampas, contratou um criado para trabalhar nos seus campos agrícolas.
O criado era novo e esbelto. Era necessário levar-lhe o almoço, a tarefa recaiu numa das ingénuas filhas.
Era Verão e esta foi encontrá-lo nu, deitado de rabo para o ar.
Face à admiração, o criado disse que estava a apanhar banhos de sol, que eram de uma grande suavidade.
A rapariga ficou entusiasmada e disse que também queria.
Depois de deitada o criado disse:
- As mulheres têm dois furos, o sol entra num e logo sai pelo outro.
Só tapando um buraco, este se fixa!
O pobre do rapaz lá teve de tapar um, para que tudo desse certo.
A felicidade foi máxima.
Chegada a casa contou uma irrmã o sucedido, esta curiosa disse logo:
- Amanhã vou eu levar o almoço ao nosso criado!
A cena repetiu-se com muito agrado desta,
Tão satisfeita ficou, que logo disse à terceira irmã.
A mesma coisa:
- Amanhã levarei eu o almoço ao nosso criado.
Nova grande satisfação!
Passados nove meses, todas as rapariga, começaram a ficar agoniadas.
Os pais acharam por bem chamar o médico.
Ainda era o tempo, que estes, se deslocavam a cavalo.
O médico prendera o seu à entrada.
À saída não o encontrou, então retrocedeu e perguntou:
- Como se chamava o vosso criado?
Respondeu o pai:
- Lixa três!
Pois, agora fica a chamar-se lixa quatro!
Lixou cada uma das suas três filhas, que vão ter um filho cada uma e lixou-me a mim, que me roubou o cavalo!



A SEGUNDA É UMA ANEDOTA DO SEU ESPÍRITO INVENTIVO:

- Um dia, na época pascal, resolvo ir fazer a confissão de desobriga da Páscoa, mostrei não saber nada de religião.
Pergunta do padre:
- Sabe ao menos quem é Deus?
Sei Senhor padre!
Deus… Sou eu!
Como assim?
Indagou este!
É que a minha Cristina todos os dias, ao deitar, reza assim:
- Com Deus me deito e com Deus me levanto.
Ora ela deita-se sempre comigo!...


Daniel Costa

CONCERTAR LOIÇA POR GATEAMENTO



Aqui está uma travessa de um serviço de loiça da minha mãe, que guardo como recordação. Os cacos foram juntos por colagem, já não estava em casa. O resultado é um desastre, como se pode ver. Garanto que o arranjo feito por mim, pelo processo de gateamento, se vista a travessa deste jeito, não se notaria o arranjo.

CONCERTAR LOIÇA POR GATEAMENTO
 
Devo ter nascido otimista, isso deve ser uma das minhas facetas congénitas, Estou no direito de achar isso a minha principal qualidade, esperando mantê-la até ao fim.
Eis o preâmbulo desta charla, para que não se pense estar aqui um saudosista.
Não se trata disso, visto que adotei desde criança o lema - "recordar é viver".
Depois de ter saído da escola primária e de até já ter cumprido, a rogo do meu pai, alguns atos de votação, até para as presidenciais a eleger o Senhor Higino Craveiro Lopes, as circunstâncias e a própria índole levaram-me a nunca ter brincadeiras, que não fossem sérias imitações do quotidiano dos adultos.
Foi assim que, não teria mais de onze anos, comecei a restaurar a loiça que se partia em casa.
Daí foi nascendo alguma clientela e consequentemente os meus primeiros centavos.
Recordo que o meu poder de imaginação era pouco menos do que prodigioso, uma vez que a ferramenta existente era apenas um martelo.
Com o mesmo achatava pontas de velhos arames de aço, que metodicamente, enfiava em cabos de madeira da minha própria autoria.
A primeira ferramenta servia para bater velhos arames, achatando-os, partindo-os aos pedaços e dobrando-os em ângulos retos nas pontas.
Chamavam-se gatos.
Numa segunda fase, já com a broca fazia vários furos nos cacos da loiça. Depois unia os mesmos por inserção, desses “gatos”; feitos de pedacinhos de arame.
No fim alindava os mesmos com cal branca (havia sempre em casa), até que novo trambolhão os fizessem em bocadinhos mais exíguos, sem mais concerto.
Imaginação, para arranjar alguns cobres, estava sempre a aparecer!...
 
Daniel Costa